O CASO DA FALSA-SERINGUEIRA NO CENTRO DE CAMPO GRANDE MS E O OLHAR TÉCNICO QUE ESTE REQUER

O CASO DA FALSA-SERINGUEIRA NO CENTRO DE CAMPO GRANDE MS E O OLHAR TÉCNICO QUE ESTE REQUER

Na avaliação do risco de queda de árvores (ou de parte delas), devem sempre ser considerados os potenciais alvos e o risco associado, com o principal foco em tentar minimizar os impactos na saúde das pessoas e segurança pública. Para fazer isso, devemos ser capazes de controlar o risco a partir de um olhar complementar de gestão e avaliação. O processo de fiscalização, identificação, quantificação e qualificação do estado da árvore é o foco da avaliação, enquanto que o processo de decisão, planejamento e execução pertence à gestão.
Recentemente, em Campo Grande – MS, cidade reconhecida pela Arbor Day Foundation por suas boas práticas na gestão da arborização urbana, uma situação diretamente relacionada à questão do risco potencial da arborização gerou comoção em muitas pessoas, por conta da decisão de suprimir uma antiga falsa-seringueira (Ficus elastica), localizada na Praça do Rádio Clube (Praça da República) no centro da cidade.
A árvore, belíssima, de porte exuberante e que consistia em um importante elemento da paisagem daquele espaço, não possuía o status de imune ao corte e não era protegida por nenhum dispositivo legal específico. A mesma vinha sendo monitorada desde o ano de 2017, quando esta apresentou os primeiros sinais de estado senescente e grande massa de galhos secos. Naquela ocasião, uma poda foi realizada para retirar apenas os ramos secos, o que acabou por deixar a copa um tanto quanto desequilibrada. Porém, era extremamente necessário tal manejo, do ponto de vista da segurança.
Desde então, a gestão passou a monitorar constantemente a sua situação, inclusive consultando profissionais renomados de fora da cidade, e após uma vistoria realizada recentemente na falsa-seringueira da Praça do Rádio, verificou-se que o estado fitossanitário encontrava-se altamente comprometido e o risco de queda de ramos era iminente. A delicada situação foi discutida com os pares.
É sabido que ali existe um ponto de ônibus, muito próximo de um grande colégio de ensino médio, em uma área central da cidade com grande circulação de pessoas. Foi considerado também que a legislação vigente atualmente não permite a poda drástica ou de desequilíbrio… a decisão foi, diante do cenário, técnica.
Frente a esta difícil decisão do Parecer Técnico, o responsável pela avaliação sugeriu que o mesmo fosse submetido à apreciação do Conselho Municipal de Meio Ambiente (CMMA), tendo em vista o porte, a localização e o histórico do indivíduo.
No entanto, ainda quando tramitava o encaminhamento do Parecer ao CMMA, pouco mais de duas semanas após a emissão do mesmo, o pior aconteceu, um galho grande se desprendeu e atingiu um transeunte, ocasionando ferimentos. Isto acendeu um sinal de alerta na gestão, que percebeu que não havia tempo, seria necessário agir mais rápido. E assim, a difícil decisão teve de ser tomada e iniciada a execução, antes que algo mais grave do ponto de vista da segurança viesse a ocorrer.
Dado o grau de comprometimento dos ramos, que mesmo com brotações e a um olhar leigo pareciam saudáveis, mas que apresentavam necroses de lenho consideráveis e infestações significativas de fungos decompositores e considerando ainda as características da espécie que possui madeira de baixa densidade, deliberou-se pela execução da poda radical em caráter emergencial.

Aspectos do estado fitossanitário da Fícus elastica, antes do acidente que feriu um transeunte.
A visão desoladora daquele indivíduo recebendo uma intervenção tão invasiva gerou comoção em muitas pessoas, que não entendiam o porquê daquela ação, o que gerou uma mobilização para que o fato fosse noticiado pela imprensa local. Pois bem, é importante frisar que as primeiras reportagens e postagens em redes sociais foram veiculadas sem consulta à SEMADUR, órgão responsável pela gestão da arborização urbana.
Laudo de vistoria e Parecer técnico encaminhaado ao Conselho Municipal de Meio Ambiente Urbano, pela remoção da árvore
Assim que consultado e entendendo estar realizando uma ação prevista na legislação e da sua competência, o órgão prestou todos os esclarecimentos e divulgou o Parecer que atestava a condição da árvore e a necessidade de uma ação tão dolorosa do ponto de vista da vida daquela árvore tão importante, porém imprescindível do ponto de vista da segurança pública.
Ainda se estuda o que fazer daqui para frente, é necessário acompanhar se haverá processo de rebrota e em que condições isto se dará, ainda há proposta de se avaliar a possibilidade de que o tronco da mesma seja mantido como uma escultura ou algo que sirva como uma homenagem póstuma a um ser vivo que muito fez, servindo como fator de conscientização das

pessoas. O fato é que a ação que precisava ser realizada com agilidade que o caso requeria para garantir segurança, já foi efetuada. Os próximos passos podem e devem ser realizados com a devida calma e cautela.
Campo Grande atua com muita responsabilidade frente à gestão de sua arborização e entende que esta é um dos elementos mais importantes da cidade, que inegavelmente faz parte da identidade dos seus cidadãos e da qualidade de vida tanto das pessoas, como de todos os demais seres vivos que nela coabitam. É verdade que, frente a tantos desafios que toda gestão pública enfrenta, não há perfeição e nem mesmo é feito tudo o que se deseja, porém temos plena consciência de que o melhor que se pode fazer tem sido feito.
Somos responsáveis e trabalhamos dentro do que preconiza as melhores técnicas de manejo em árvores, seguimos as recomendações da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU), que é o capítulo da Sociedade Internacional de Arboricultura (ISA) no Brasil. Todas as decisões são tomadas com base em análises técnicas de profissionais capacitados com formação específica para atuar nesta seara e muito comprometidos com a questão, dada a consciência plena do quão a arborização é essencial pelas diversas funções que desempenha.
Desta forma, é inegável que envolvimento da população em questões dessa natureza nos deixa muito felizes, isso demonstra que os anos de trabalho duro têm mostrado resultado.
Não obstante, o mesmo empenho, dedicação e esforço, nós sinceramente gostaríamos que fossem destinados a todas as demais árvores da cidade!
E como poderíamos continuar fazendo um pouquinho disso, da nossa parte enquanto cidadão que gosta, que cuida de árvores? Não permitindo que sejam realizadas podas drásticas de árvores em frente as nossas próprias casas. Não permitindo que outras árvores sejam suprimidas, diferentemente desta, sem autorização ou um parecer técnico após análise individual ou evitando o plantio voluntário sem a devida orientação técnica.
Em Campo Grande, denúncias como esta, ou aquela são acolhidas através do canal Fala Campo Grande, por meio do site da Prefeitura ou por ligação no 156. Além disso, o munícipe pode se dirigir à Central de Atendimento ao Cidadão e solicitar a avaliação.
1Marcel R. Cavallaro
Biólogo, Auditor Fiscal de Meio Ambiente/SEMADUR
Membro da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU)
2Gisseli Giraldelli
Bióloga, Superintendente de Fiscalização e Gestão Ambiental/SEMADUR Membro da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU)

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